No bairro viguês de Coia, nos anos setenta, um grupo de frades e freiras dominicas revolucionou a paróquia do Cristo da Vitória. Trabalhavam com pessoas com adições, seguiam com atenção os processos anticoloniais polo mundo, faziam parte dos Comités de Solidariedade com América Latina. Eram os chamados “curas obreiros”, seguidores da teologia da libertação, e converteram-se em motor do movimento cidadão do bairro. Foi nesse espaço onde a escritora Begonha Caamanho (Vigo, 1964 – Compostela, 2014), a quem este ano se homenageia no dia das Letras Galegas, teve o seu primeiro espaço de politização.

O local que a igreja tinha no rés-do-chão do edifício em frente ao instituto era o centro da vida social da rapaziada de Coia. Ali encontravam um espaço de partilha longe do fundamentalismo católico, com muita crítica social e formação política. Era um espaço misto, crítico, onde afloravam as descobertas da adolescência e as perguntas sobre o mundo. A paróquia converteu-se, assim, em uma escola de formação política, ética e comunitária que deixou uma marca profunda no tecido associativo do bairro e também na consciência de Begonha.

Uma das luitas articuladas arredor da paróquia foi a do movimento vizinhal contra a especulação e em defesa da Bouça, um terreno comum entre as grandes torres de vivendas de Coia. Sob a legenda “a Bouza é nosa”, decorrem protestos, cortes de rua e acções de pressão sustentadas até conseguirem proteger o espaço ameaçado, que hoje constitui o principal pulmão verde do bairro. Também foi a partir do activismo paroquial que se gestaram protestos para conseguir passos elevados e passos de peões na avenida de Castelao, por onde os carros passavam a grande velocidade. A fé, ali, tinha consequências urbanísticas.

Begonha participou também no mantimento da escola de Barcia de Mera, em Covelo, na comarca de Paradanta, onde faziam acampadas de adolescentes. Um convívio na natureza que era cenário de descobertas e primeiras experiências. Ali, deitada no chão da noite, depois de horas de jogos, uma adolescente acariciava com os dedos o rosto do seu amigo. O mundo era imenso e estava todo por diante.

O que esses dominicos de Coia semearam em Begonha não foi uma fé religiosa — ela nunca se definiu crente — mas algo talvez mais duradouro: a convicção de que a neutralidade é impossível e que a justiça exige tomar partido. Que as estruturas de opressão tenhem nome e podem ser desmontadas. Que o local e o global estão sempre ligados. Que uma adolescente num bairro obreiro de Vigo pode, e deve, estar pendente do que acontece em El Salvador.

Décadas mais tarde, já com uma vida intensa de activismo feminista e independentista, Begonha continuaria a reconhecer esses anos como fundacionais. A teologia da libertação deixara nela não a linguagem religiosa, mas a lógica política: os de baixo contra os de cima, o comum contra o privado, a dignidade como irrenunciável. Uma revolução na qual poder bailar. Um feminismo como prática e utopia, caminho e destino ao mesmo tempo.

A paróquia do Cristo da Vitória foi, para ela, a primeira escola política. E os curas obreiros de Coia, sem o saber, contribuíram a formar uma das vozes mais lúcidas e combativas da literatura galega contemporânea.