Uma experiência prática.
Vivemos momentos de muito ruído no mundo agrário, as atuais mobilizações do setor primário contra a assinatura do acordo de livre comercio União Europeia-Mercosul trazem aos titulares dos meios de comunicação a questão da produção de alimentos e fazem que o conjunto da sociedade escoite conceitos como o da Soberania Alimentar, escoite a agricultoras e gandeiras falar de competência desleal, da seguridade e da qualidade dos alimentos que pomos cada dia nos nossos pratos, de como se produzem, de que normativas sanitárias e sociais hai na Europa e quais hai no Mercosul. Muitos conceitos, muito ruído. Rio revolto, ganancia de pescadores.
Porcos celtas da exploração agroecológica de Raquel e Iago em Meire
“A vaca Cachena era a raça que cumpria com melhor com todas as nossas premissas”
As políticas agrárias da União Europeia estão desenhadas desde o marco da famosa PAC (Política Agrária Comum), nascida inicialmente no período após a Segunda Guerra Mundial pretendia garantir o subministro de alimentos a população europeia, apostando na lógica produtivista da Revolução Verde: Agricultura baseada na mecanização, no mono-cultivo, na especialização produtiva e na utilização de adubos químicos, pesticidas de síntese, antibióticos e rações compostas para os animais. A produção de alimentos foi ficando em cada vez menos mãos. Consequências? A ruína das pequenas agricultoras europeias incapazes de produzir aos custes que a economia de escala sim permite, agricultoras dos países do sul arruinadas pola entrada nos seus países de produções da agro-industria europeia a preços mais baixos e consumidoras em toda a parte consumindo produtos de baixa qualidade distribuídos polos gigantes da distribuição alimentaria mundial.
Na Galiza este processo resultou na alta especialização produtiva entorno a produção leiteira e cárnica de vacuno e na importante presença de gandaria sem terra de porcino e avícola. Este modelo fomentou a presença de explorações cada vez mais grandes, mais tecnificadas, mais necessitadas de capital e atendidas por cada vez menos pessoas. As zonas onde este modelo não se adaptava, pola própria configuração do território ficaram a ermo e a sua povoação foi-se embora a emigração. Este e o marco geral que explica a paroquia de Meire, no concelho de Alhariz onde nós iniciamos a nossa aposta produtiva.
Trás um periplo por várias projetos agroecológicos em diferentes lugares, dentro e fora da Galiza, decidimos iniciar o nosso próprio caminho. Por circunstâncias diversas demos no Concelho de Alhariz e asinha vimos claro as potencialidades da zona para a ganadaria extensiva: muita terra abandonada, escasso numero de explorações a funcionar na zona. O território abandonado tem muito potencial mas é pouco produtivo inicialmente. Precisávamos animais rústicos e adaptáveis, capazes de se desenvolver bem no exterior, pois também não havia capital para investir em instalações, capazes de transformar esses pastos pobres em alimentos sans e de qualidade e ao mesmo tempo que nos ajudassem no processo de recuperação das terras aumentando a sua fertilidade, a vaca Cachena era a raça que cumpria com melhor com todas as nossas premissas.
Daí iniciamos o processo, por uma parte de tratar com as vizinhas para que nos cedessem o uso da terra que necessitávamos, isto com a ajuda de companheiras já estabelecidas na paróquia e colaboração do Concelho. Esta parte foi difícil, mas podeis estar certas que resulta singela comparada com o trabalho de lidar com essa estrutura de destruição planificada do meio rural auto-autodenominada Conselharia do Meio Rural. Hoje estamos aproveitando perto de 100Ha, a maioria de monte, todas elas cedidas por particulares. Ao se ver o trabalho feito o acesso ao uso da terra torna‐ se mais doado, sem ser um caminho de rosas pois estamos numa zona onde existe certa pressão turística e imobiliária e tendo em conta que esse uso sempre e em cessão e de palavra e portanto precário.
Por contra a questão de tratar com a CMR, e outras como Fazenda ou a Segurança Social sempre foi um caminho tortuoso, e cada dia é mais dificil, absorve mais tempo e resulta mais desgastante; são estruturas rígidas, mastodônticas, culturalmente alheias, cheias de preconceitos anti‐labregos e fundamentalmente incapazes de compreender e valorar nem as dificuldades que temos nem a beleza imensa do nosso dia‐a‐dia. Mas fundamentalmente negam‐se a entender que nos não somos empresárias, que somos produtoras de alimentos sans e de qualidade e que queremos fazer que cheguem ao nosso povo a preços justos para ambas partes. Por aí que se construi a Soberania Alimentar. Por isto é que apostamos desde o inicio na venda direta da carne que produzimos as pessoas consumidoras e que trabalhamos em colaboração com outras produtoras para conseguir que os produtos locais como o nosso cheguem por exemplo aos comedores escolares da zona.
Continuando nas mesmas lógicas de aproveitamento da terra e de aproveitamento das virtudes das raças autóctones das que falávamos ao principio, este ano começamos com a cria extensiva de porcino, e coa raça Porco Celta o que nos permite diversificar a origem dos nossos ingressos e ao mesmo tempo ofertar mais produtos já não apenas frescos mas também elaborados num futuro próximo.
Produzir alimentos no País e para o País é uma necessidade imperiosa e uma aposta estratégica
inescusável, fazê‐lo em zonas de forte abandono tem ainda uma importância maior, pois a vulnerabilidade destas zonas ante projetos de depredação energética, mineira, macro‐granxas etc. é ainda maior e a presença de labregas e labregas organizadas é fundamental para resistir quando este tipo de agressões chegam.
Assim que nada, o povo a produzir para o povo,juntinhas por e para todas. Saúde e Terra.